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O que “A Odisseia”, de Nolan, pode ensinar sobre as suas emoções

Foto do escritor: Zeno Sena
Zeno Sena
19 de jul.
5 min de leitura

Antes de começar: este texto não revela nada do filme que o mito de quase três mil anos já não conte. Se você sabe que Ulisses demorou vinte anos para voltar da guerra de Troia, já sabe tudo o que será mencionado aqui.

“A Odisseia”, de Christopher Nolan, estreou em 17 de julho de 2026, com Matt Damon como Ulisses (Odisseu), Anne Hathaway como Penélope e Tom Holland como Telêmaco. O filme adapta o poema de Homero e acompanha a longa viagem de volta do rei de Ítaca após a guerra de Troia. Nolan citou a tradução publicada por Emily Wilson em 2017 como uma de suas inspirações, e o longa foi o primeiro filmado inteiramente com câmeras IMAX. Na data de publicação deste artigo, 95% das 357 críticas reunidas pelo Rotten Tomatoes eram positivas; o consenso destacava a capacidade do filme de dar ao mito um sentimento humano primordial.

É esse sentimento que me interessa como psiquiatra. A história de um homem que sobrevive a uma guerra e passa anos tentando voltar para casa toca em experiências que a saúde mental estuda há décadas. A proposta aqui é oferecer algumas lentes para assistir ao filme e, talvez, observar as próprias emoções. Uma ressalva necessária: personagens míticos não recebem diagnóstico. O que segue é uma leitura ilustrativa, não uma avaliação clínica de Ulisses ou Penélope.

A guerra que continua depois da guerra

Em “Odysseus in America”, publicado em 2002, o psiquiatra Jonathan Shay lê o retorno de Ulisses à luz do que observou ao atender veteranos do Vietnã: homens que voltaram fisicamente da guerra, mas continuavam em combate por dentro, com desconfiança, explosões emocionais e dificuldade de se aproximar de quem amavam. Seu trabalho também ajudou a difundir o conceito de lesão moral: o sofrimento que pode surgir quando alguém pratica, testemunha ou deixa de impedir algo que viola profundamente seus valores. Lesão moral é um conceito clínico e de pesquisa, não um diagnóstico por si só.

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), por outro lado, é um diagnóstico com critérios definidos. Pode envolver lembranças intrusivas, esquiva, alterações persistentes de pensamentos e humor e hiperativação ou reatividade após a exposição a um trauma. As principais diretrizes recomendam psicoterapias focadas no trauma, embora a resposta varie de pessoa para pessoa. Se o filme mostrar um Ulisses assombrado pelo que viveu, essa experiência pode lembrar a de sobreviventes de violência, acidentes e desastres — e sofrimento persistente merece avaliação.

A saudade que pode proteger

Ulisses passa anos longe de casa, e a palavra que nos vem é saudade. A psicologia estuda uma emoção próxima: a nostalgia. Pesquisas de Constantine Sedikides, Tim Wildschut e colaboradores indicam que ela é uma emoção ambivalente, mas frequentemente mais positiva do que negativa. Em estudos experimentais e revisões, a nostalgia se associou a maior conexão social, continuidade entre passado e presente e senso de significado.

Isso não transforma toda lembrança em recurso terapêutico. Mas ajuda a entender por que lembrar de casa com o coração apertado não é necessariamente fraqueza ou sintoma. A memória pode nos ancorar no que importa; em outros momentos, pode manter a pessoa presa ao que já não existe. Vale observar, no filme e na vida, quando a lembrança nutre e quando começa a limitar o presente.

A espera de Penélope

Enquanto Ulisses navega, Penélope espera sem saber se o marido está vivo ou morto. A terapeuta familiar Pauline Boss deu o nome de perda ambígua a experiências desse tipo: alguém está fisicamente ausente, mas permanece psicologicamente presente, como pode acontecer com familiares de pessoas desaparecidas. Sem certeza, os rituais e decisões do luto ficam suspensos. Boss questiona a ideia de que todo luto precise de “fechamento”; muitas vezes, o caminho possível é aprender a viver com a dúvida.

A perda ambígua não é a mesma coisa que o transtorno de luto prolongado. Este último pressupõe a morte de alguém próximo e descreve situações em que a dor permanece intensa, persistente e incapacitante além do esperado para o contexto cultural. A CID-11 utiliza um período mínimo de seis meses; no DSM-5-TR, o critério temporal para adultos é de doze meses. Boss também descreve a forma inversa da perda ambígua: quando alguém está fisicamente presente, mas psicologicamente muito distante, como pode ocorrer em demências avançadas.

Voltar para casa também é reconstruir a identidade

O mito conta que Ulisses chega a Ítaca irreconhecível e precisa provar quem é. Estudos com veteranos que enfrentam dificuldades de reintegração encontram associações entre ruptura de identidade, sintomas de TEPT, menor satisfação com a vida, menos apoio social e maior dificuldade de adaptação. Esses achados não significam que toda transição militar leve ao adoecimento; mostram que retornar pode exigir mais do que simplesmente chegar ao lugar de origem.

Vínculos, comunidade, propósito e apoio de pessoas que viveram experiências semelhantes aparecem na literatura como fatores relevantes para a adaptação. Não se trata de apagar quem a pessoa foi, mas de encontrar continuidade entre o que viveu e o que pode construir agora. A mesma pergunta pode surgir em outras transições: migração, aposentadoria, fim de um relacionamento longo ou retorno após uma internação.

Antes da sessão, um convite

Quando as luzes se apagarem, experimente assistir com estas perguntas por perto: o que este personagem carrega da guerra dele? De que sente saudade, e essa saudade o fortalece ou o paralisa? Quem espera por ele, e como essa espera dói? O que precisa acontecer para que ele volte não só ao lugar, mas também a si mesmo? São perguntas que o mito faz há quase três milênios e que continuam úteis em tempos de crise, mudança ou perda.

Emoções difíceis diante de um filme ou de uma fase da vida são comuns e, na maioria das vezes, passageiras. Vale procurar avaliação profissional quando o sofrimento persiste, prejudica sono, trabalho ou relações, quando lembranças de um trauma invadem o cotidiano ou quando o luto segue intenso e incapacitante por muitos meses.

Se houver risco imediato de alguém se machucar ou pensamentos de suicídio com intenção ou plano, procure um serviço de emergência ou ligue para o SAMU pelo 192. O CVV oferece apoio emocional pelo 188, 24 horas por dia.

Referências e atualização

Texto revisado em 19 de julho de 2026.

Nolan, C. “The Odyssey”. Universal Pictures, 2026. Site oficial e materiais de imprensa.

Rotten Tomatoes. “The Odyssey” (2026). Dados consultados em 19 jul. 2026.

Shay, J. “Odysseus in America: Combat Trauma and the Trials of Homecoming”. Scribner, 2002.

U.S. Department of Veterans Affairs; Department of Defense. Clinical Practice Guideline for the Management of Posttraumatic Stress Disorder and Acute Stress Disorder, 2023.

Sedikides, C.; Wildschut, T. Finding Meaning in Nostalgia. Review of General Psychology, 2018. DOI: 10.1037/gpr0000109.

Boss, P. “Ambiguous Loss: Learning to Live with Unresolved Grief”. Harvard University Press, 1999.

American Psychiatric Association. DSM-5-TR; atualização de critérios consultada em 2026.

Shiner, B. et al. Identity Disruption and its Association with Mental Health among Veterans with Reintegration Difficulty. Developmental Psychology, 2021. PMID: 34264728.

Dr. Zeno Sena, psiquiatra. MÉDICO: CRM-PB 5570. Psiquiatra: RQE 7633. Conteúdo educativo; não substitui consulta médica.

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© 2026 por Zeno Sena.

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